Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas 
Quando a noite perde o rosto; 
Palavras que se recusam 
Aos muros do teu desgosto. 

De repente coloridas 
Entre palavras sem cor, 
Esperadas inesperadas 
Como a poesia ou o amor. 

(O nome de quem se ama 
Letra a letra revelado 
No mármore distraído 
No papel abandonado) 

Palavras que nos transportam 
Aonde a noite é mais forte, 
Ao silêncio dos amantes 
Abraçados contra a morte. 

Alexandre O’Neill, in ‘No Reino da Dinamarca’

 

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Alexandre O’Neill nasceu em 1924, em Lisboa, cidade onde viveu e onde viria a falecer em 1986.

Participou na introdução do surrealismo em Portugal (em 1945 conhece Mário Cesariny e é um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, em 1947). Embora esta referência seja fundamental para a compreensão de uma parte da sua poesia, O’Neill demarca-se deste movimento a partir da publicação de Tempo de Fantasmas, em 1951, o seu primeiro livro de poemas.

Entre outras atividades, O’Neill trabalhou durante um largo período da sua vida em publicidade. Poeta inconformista, na sua escrita mistura-se a ironia, o humor e a nota assumidamente lírica, a escapar para o irreal e para o sonho.

 

Escultura em papel, de Sue Blackwell.

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